O Que é Carne Seca?


A salga e a desidratação, seguida ou não da defumação, foram e ainda são as formas mais primitivas de conservação da carne e decorrem da necessidade de preservar o excedente do produto obtido no abate, dessecando-o ao vento ou próximo a fogueiras.

Carne-de-sol, carne-do-ceará, carne-do-sertão, carne seca ou “jerked beef”, charque, carne-de-vento, jabá, todos esses nomes são aplicados para designar praticamente um único produto: mantas de carne desidratadas e dessacadas, muito consumidas e usadas em um sem número de recitas de norte a sul do País.

Quem Inventou
As primeiras “charqueadas” de que se tem notícia datam de 1780, realizadas pelo cearense José Pinto Martins, numa propriedade situada às margens do Rio Pelotas, no Rio Grande do Sul. Tudo feito com muita simplicidade num galpão onde se preparavam e salgavam as carnes que ficavam expostas ao ar livre para secar.
Nessa época, a capitania do Rio Grande foi considerada o “inferno dos negros”, pois eles eram utilizados como mão-de-obra escrava e quase sempre, tratados rudemente para se conseguir maior produção.
Com o passar do tempo o charque, que era usado na alimentação dos escravos e das camadas mais pobres da população, acabou ganhando status e tornou-se um dos principais produtos da economia sulista. Atualmente deixou de fazer parte só do cardápio dos pobres e passou a fazer parte também dos mais requintados restaurantes, com muitas variações de receitas.

Charque ou Jerked Beef
Existem pequenas diferenças entre a carne seca ou jerked beef (carne bovina salgada curada e seca) e o charque (carne bovina, salgada e dessecada). O processo tecnológico básico é o mesmo. Só que, no caso da carne seca, é adicionado nitrito de sódio ou de potássio à salmoura e o teor de umidade é maior.

Carne da Lua

Ingredientes

  • 500g de carne seca dessalgada

Para o Tempero

  • 2 colheres de sopa de molho vinagrete
  • 1 colher de sopa de molho chimichurri
  • 1 pitada de pimenta-do-reino preta
  • ½ colher de café de sal
  • 1 colher de sopa de azeite

Modo de Preparar
Depois de dessalgar completamente a carne, deixe durante uma noite inteira repousando no sereno (claro, protegida de um possível ataque dos gatos da vizinhança) sem nenhum tempero. Depois separe a carne em bifes grossos. Faça um corte na lateral dos bifes, dividindo a sua espessura ao meio sem separar as partes. Os bifes vão ficar “abertos” como as páginas de um livro. Faça alguns cortes não muito profundos em diagonal na superfície dos bifes. Misture todos os ingredientes de tempero numa travessa de louça, coloque os bifes já preparados e deixe marinar durante 10 minutos. Depois leve-os à grelha a uma distância de 30cm do braseiro durante 8 minutos de cada lado. Esta receita não deve ser servida além do ponto ideal de cozimento. A carne ficará dura e o sabor perderá todas as suas características essenciais. – Receita preparada e produzida pelo churrasqueiro Carlão, da Parrilla Puerto Madero, em São Paulo, com produto fornecido pelo Frigorífico Bom Charque

Para a fabricação do charque e da carne seca vários cortes tradicionais são utilizados: ponta de agulha, dianteiros e carcaças destinadas ao aproveitamento condicional por razões de ordem técnica. A carne de sol é uma variação artesanal, na qual as mantas recebem salga seca e vão direto para a exposição ao sol. É um processo que inibe o crescimento de bactérias e preserva o produto de ações prejudiciais induzidas pelo excesso de umidade, além de reduzir custos com embalagem, armazenagem e transporte, pois não necessita ser mantido sob refrigeração.

As Fases
Bem, vamos mostrar como são feitos o charque e a carne seca, analisando os processos de produção para entender melhor as diferenças dos produtos finais.

1.0 - O charque (carne bovina, salgada e dessecada) é o resultado da salga forte, compreendendo várias etapas:
1.1 - Salga úmida: feita em tanques especiais onde as peças ficam em movimentação constante durante 30 a 40 minutos, numa temperatura de cerca 15ºC, sendo utilizado sal em solução a 23,5º Baumé ou 95º salômetros (335 g de sal/Kg de água);
1.2 - Salga seca: é o segundo passo do processo e dura cerca de 12 horas. Mas, pode chegar até 24 horas;
1.3 - Ressalga: consiste na adição de sal de primeiro uso entre as diversas camadas de carne, sempre com a porção gordurosa voltada para cima;
1.4 - Pilha de volta: é a inversão das posições das peças;
1.5 - Tombos: inversões em que as partes inferiores das peças ficam voltadas para cima na nova pilha;
1.6 - Pilhas de espera: são feitas por razões ligadas às condições atmosféricas ou por ordem comercial;
1.7 - Pré–lavagem: é feita em tanques especiais com água e cloro ativo, antes da dessecação e remoção do excesso de sal da superfície. As peças de carne já curadas e lavadas são empilhadas para escorrer a água.
1.8 - Dessecação: é feita em varais ao ar livre, seguindo a orientação norte-sul com o objetivo de aproveitar melhor os raios solares e o vento;
1.9 - Estendidas: a primeira estendida ao sol é breve para cortar os efeitos nocivos da canícula (hora da maior intensidade dos raios solares, no meio do dia) e impedir a acentuada dessecação superficial que dificulta a da porção interna. Após segue-se um descanso de três dias, sempre acompanhado de novas estendidas intercaladas com descanso e finalmente chega-se ao processo final que é a embalagem, onde o charque é prensado em pequenos pacotes e envolvido em pano de algodão ou então embalado em fatias de 500g a 1kg em plástico, sob vácuo.
2.0 - Agora vamos ao processo de fabricação da carne seca (carne bovina, salgada curada e seca):
2.1 - As postas de carne são “esticadas” em mantas de 3 a 4 centímetros de espessura. Então são realizados cortes penetrantes com distâncias e profundidades variáveis conforme a espessura da manta;
2.2 - Salga: utiliza-se cloreto de sódio e nitrito de sódio ou potássio. É realizada por esfregação na superfície das mantas, forçando com os dedos a penetração nas reentrâncias;
2.3 - Escorrimento da salmoura: depois de salgadas as mantas são empilhadas no piso sobre uma esteira de palha ou de tábuas colocadas sobre um tanque cimentado, destinado a recolher a “purga”, que depois será empregada na lavagem (imersão das mantas salgadas);

Curiosidades
• O processo de conservação artesanal da carne pelos processos de salga e dessecação ao Sol é conhecido há muito tempo na América do Sul, especialmente na região dos Andes.
• Lá o produto é chamado, na língua quéchua, de charki. Esta palavra, incorporada ao espanhol, desceu dos Andes argentinos em direção aos Pampas e chegou aos ouvidos dos nossos gaúchos.
• Então aportuguesada para charque foi incorporada ao vocabulário brasileiro à medida que se difundiam as receitas em que o produto aparecia como ingrediente.
• O charque também é produzido em escala industrial e comercializado em supermercados porcionado em embalagens a vácuo. Um dos mais tradicionais produtores é o Frigorífico Bom Charque.
• Em 3 unidades industriais – 1 em Mato Grosso do Sul e 2 em São Paulo -produz alguns tipos de charque e jerked beef embalados na forma dos tradicionais cubinhos, com ou sem camada de gordura.
• Na próxima edição vamos mostrar os processos de produção empregados em toda sua linha de cortes especiais – Brasboi, Brasboi Grill, Jerked Beef Bom Charque e Carne de Sol Bom Charque.

2.4 - Exposição ao sol: salgadas, elas são expostas ao sol em varais de madeira, sempre voltadas para o sol nascente nas primeiras horas da manhã, durante 30 e 60 minutos sempre com a parte da gordura para cima. Por último, são dobradas e embaladas em esteiras de palha costurada com barbante, em fardos de aproximadamente 100 kg. Esta forma de embalagem permite que o líquido restante possa evaporar naturalmente.

Para complementar este assunto nada melhor que uma boa receita de churrasco de charque (do nosso amigo e colaborador Carlão, da Parrilla Puerto Madero) e quem sabe nas próximas edições tenhamos mais uma novidade para contar: charque de frango. Aguardem!

Receita Caseira
D
ona Laudelina Ferreira “fez” muita carne-seca quando morava na Bahia. E hoje dá a sua receita doméstica para quem quiser aprender. Segundo ela, “-É muito importante separar uma manta de carne bem macia e esticá-la até que fique com 5 centímetros de espessura, no máximo. Depois, passe bastante sal grosso dos dois lados da carne e esfregue bem. A seguir deixe-a descansar na salmoura, numa vasilha de plástico, até o dia seguinte. Vire a carne pelo menos duas vezes nesse período. No dia seguinte leve-a ao sol para secagem. Mas, tome cuidado com a poeira ou insetos que podem estragar o seu trabalho. Pode-se ainda deixar a manta durante toda a noite no sereno, que a carne ficará ainda mais gostosa. Nesse caso é preciso do dobro do cuidado para que durante a noite a carne não vire comida de algum gato ou cachorro faminto. Dependendo da época do ano e da intensidade do calor do sol, em um dia a carne estará curada e poderá ser guardada na geladeira para ser consumida no prazo máximo de uma semana.”


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